
Há pouco mais de quatro anos, publiquei o primeiro texto deste blog. Estava de férias, inseguro em relação ao futuro, e chamei essa insegurança de tédio. Na época, escrevia materiais didáticos e cursava faculdade. E claro, o mundo inteiro estava fechado, em lockdown pelo Coronavírus.
O tempo passou, criaram a vacina, a pandemia ficou sob controle, eu terminei a faculdade e hoje trabalho em um restaurante Michelin. Mas o engraçado é que, apesar de todas essas mudanças, eu ainda me sinto o mesmo. Lendo os textos que publiquei, eu continuo sendo a mesma pessoa.
Agora estou novamente de férias, ainda que de outro trabalho, mas meu futuro ainda me parece tedioso, e meu passado, desinteressante. Fico novamente com o presente – é ele quem me resta. E novamente, depois de muito tempo ocioso e reflexão, eu decidi criar um blog. Desta vez, vou tentar seguir com o plano: escrever, postar, e depois escrever mais e de novo. Eu espero que este novo recomeço dê certo. Se não der, quem sabe em quatro anos eu não encontre uma nova profissão, em um terceiro ramo totalmente distinto dos anteriores. Talvez, após um tempo neste novo ramo, quando tirar férias novamente, eu volte a me sentir entediado pensando no futuro e decida retomar o blog. A vida é isso: um constante recomeço. Todo dia o sol brilha de um novo jeito, ainda que ninguém perceba, pois ele ainda assim está brilhando.
O que me inquieta é saber se esse cansaço, essa desilusão, esse desinteresse e esse tédio que sinto há anos são sintomas da minha condição humana: será que sempre estarei assim? Ou será que são sintomas de alguma ferida não curada, que carrego desde 2021?
O bom de escrever e registrar essas angústias é poder, depois, revisitá-las, interrogá-las, conhecer-se, descobrir-se, questionar-se. A escrita permite ao escritor sentir o desconforto, e depois dissecá-lo, analisá-lo, entendê-lo, para depois queimá-lo na fogueira. E um dia, ele se depara com as suas cinzas.
Mas ainda há a possibilidade de eu me enxergar no texto antigo por ele ser espelho. Pois sim, no fundo de todo texto, após dissecá-lo e sentir o cheiro pútrido de suas entranhas, você encontra um espelho. E no espelho, você se enxerga, e os olhos só enxergam o presente. Será que estou projetando minhas dores e aflições atuais nas dores e aflições que sentia no passado, e por isso as confundo como iguais? Não sei. A memória é falha e engana.
No fim, ler o que escrevi é o mesmo que ler o que qualquer outro escreveu, pois depois que escrevo mudo. Não se entra duas vezes no mesmo rio, mas também não se entra duas vezes na mesma lagoa. As águas podem ser as mesmas, mas eu não. Não sou mais eu quem escreveu aquele texto. Sou outro.
Então por que ainda sinto esse tédio, esse desinteresse pela vida? Talvez porque todos sintam tédio e desinteresse pela vida quando param para pensar nela. Talvez não. Não sei. Quem sabe, daqui a quatro anos, eu descubra. Enquanto isso, resta-me apenas uma coisa: continuar a escrever.
Adorei teu texto.
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