04 – mente vazia, oficina do diabo

Estou de férias. E longe do frenesi do trabalho corrido, tenho tempo. E que coisa engraçada é ter tempo, não? Quando se tem tempo, ou você o joga fora não fazendo nada, ou o gasta com coisas que jamais imaginaria fazer. Ou ainda, você gasta o seu tempo pensando em coisas que não pensaria se não fosse o ócio — mente vazia, oficina do diabo! Independente do que você faz, esse tempo que você tem te transforma. 

Eu mesmo sinto que nessas férias me transformei. Sinto que, com o tempo, eu pude finalmente me tornar quem eu já estava há muito tempo a caminho de me tornar, mas me faltava o tempo para poder ser quem eu me tornei, ou melhor, me faltava tempo para deixar de ser quem eu era mas não devia ser. E que sensação boa essa de ser quem eu sou. Ser quem eu quero ser. Ser quem eu devo ser. Que sensação boa esta de mudar! Mas por que eu sinto isso? Não sei. Mas sinto. Sinto nas roupas que eu uso; nas comidas que eu faço; nas decisões que eu tomo; e nos meus arrependimentos – talvez especialmente neles. Ah, os arrependimentos que eu tenho são tão meus, tão próprios, idiossincráticos! Como é lindo se reconhecer nos seus defeitos, e olhar para um erro e falar “fui EU quem cometi!”. 

Sinto clareza sobre as minhas frustrações; e os meus sonhos, como a água da chuva, vieram do céu à terra. Desisti de quase todos eles. Mas a chuva que cai do céu molha a terra, e a terra úmida é fertil: nela posso plantar uma vida que é reflexo melhor de quem eu sou.

Consigo ver o que me frustra e tenho que aceitar no momento, e o que me frustra e posso mudar agora, e o que posso mudar depois, e o que não posso mudar depois. Vejo quais obstáculos vou enfrentar. Vejo quais caminhos mais seguros e simples posso seguir. Vejo os caminhos tortuosos que se abrem ao lado deles. Vejo tudo, porque ser eu me trouxe clareza! É o sol que brilhou após a noite. Era isso: eu vivia na noite, no escuro, e não podia me enxergar, nem enxergar meus arredores;  mas agora é dia, é claro, e eu vejo tudo!

Porém também não nego que, depois do júbilo de ser eu, me veio uma tristeza profunda. Tristeza pelo tempo perdido sendo um outro, e medo de, conforme as férias passem e o tempo vanessa, eu deixe de ser quem eu sou. Tenho medo de perder a mim mesmo no caos da rotina, nas noites mal dormidas, no estresse de trabalho. Medo de me perder na fome e na gula. Mas eu também sinto que agora, sendo quem eu sou, vou ganhar tempo, há que o espaço eu sinto que já ganhei. Serei senhor de mim, do tempo e do espaço.

E não vou gastar palavras tentando explicar quem eu sou, ou como mudei. Isso seria um desperdício do meu tempo e do seu. E por mais que eu esteja de férias, as férias estão acabando, e eu quero me aproveitar o máximo possível – não é sempre que consigo ser quem sou.

02 – tempo para amar

Gustav Klimt - Woman in an Armchair (Dame im Fauteuil) [1897-98] | Klimt,  Klimt art, Gustav klimt art
Dame im Fauteuil (1898) – Gustav Klimt

Até pouco tempo atrás estava de férias, mas eu lembro que mesmo de férias meus dias eram corridos. Fazer exercício, Duolingo, estudar, ler, escrever, lavar a louça, conversar com as pessoas, e todas outras coisas que ocupam essas 16 horas diárias que eu passo acordado. A moral é que eu tenho pouco tempo livre, mesmo para assistir filmes eu tenho que me programar. Esqueço o tempo todo de responder meus amigos, a louça sempre acumulada e não me lembro da última vez que abri meu TCC. Não tinha tempo para essas todas coisas – e eu estava de férias. Está certo que me falta um pouco de planejamento e força de vontade, mas acho que em geral nossa vidas são atarefadas.

A pergunta que eu quero fazer é: como as pessoas arranjam tempo, no meio de todo esse caios cotidiano, para namorar?

Eu realmente não consigo entender. Tenho 22 anos e nunca namorei, mas, como matemático quase formado, posso dizer que a conta não fecha. As vezes eu sonho em desencalhar, mas realmente acho que entre trabalho, faculdade e lazer não há espaço para o amor. Talvez eu não entenda, de fato, o que é um relacionamento amoroso. Na minha leiga concepção, é uma amizade forte em que há atração sexual. Estou errado? Iludido? Há amor sem amizade? Há grandes amizades com atração sexual? Há amor sem atração sexual?

Não consigo deixar de pensar que as conversas são importantes. E se não é a conversa que mantém um relacionamento, se não é o tempo que você passa junto da pessoa que ama, então um namoro é apenas uma afirmação? Uma verdade em que você pode se ancorar toda vez que se sentir sozinho? Como os religiosos sempre tem consigo Deus, os namorados sempre tem um ao outro?

Um lado meu tem medo de ser um namorado ruim por não conseguir se dedicar a um relacionamento todo tempo que eu devia, tem medo de não ter energia para conversar todos os dias e ser relapso com o amor da mesma forma com eu sou com as minhas amizades. Um outro lado meu acredita que, quando eu encontrar o amor, eu vou ser entendido, abraçado, e as conversas não vão ser cansativas, mas me reenergizar. As duas partes entendem que um relacionamento vai me ajudar a mudar e crescer. As duas partes de mim acham que eu preciso de coragem pra encarar o mundo e expor os meus defeitos, dar a cara tapa, perder o medo de sofrer, porque isso faz parte da minha jornada e eu devo parar de procrastinar.

Sabe outro medo que eu tenho? Tenho medo do meu primeiro amor ser eterno. Eu não quero ser um homem de um único amor; eu quero errar e sofrer; quero passar por um término e ouvir umas das muitas playlists de sofrência amorosa que eu já criei. Mas como eu posso começar um relacionamento com a esperança que um dia ele acabe? Eu sei que as probabilidades de eu encontrar o amor na primeira tentativa são baixas, mas não são nulas. Mas enquanto não encontrar meu primeiro amor, não terei o segundo. E se o primeiro amor for eterno, não quererei ter o segundo. Esse falso paradoxo é fácil de se resolver, mas o medo permanece, mesmo depois que lógica o prova irracional.

Me parece que quanto mais o tempo passa, mais difícil tudo isso fica. Da mesma forma como ao envelhecermos fica mais difícil conquistar a fluência numa língua, temo envelhecer e nunca obter fluência no amor. Por enquanto, me escoro na pandemia e no isolamento social para deixá-lo para depois.