05 – 27 anos de vida normal

Sábado, 20 de dezembro, eu completo 27 anos.

Aniversário é sempre algo melancólico, pois nessa data, tudo gira em torno de mim, e eu não me amo tanto assim. Mas ainda assim a terra, no dia 20 de dezembro, para de girar em torno do sol e gira ao redor de João Pedro. E cadê João? Perdido. Ou – mais provável – atrasado. Mas atraso pensando sobre as últimas 365 voltas que a terra deu em torno de si mesma.

Para mim, a maior lição que eu tirei nos últimos 365 dias foi que perdi o medo de envelhecer. Pois sim, todo jovem teme envelhecer, e todo jovem sente o tempo escorrendo por entre seus dedos ano após ano. Faz 18 anos e faz drama, como se entendesse de alguma coisa. Depois é 20 anos e parece que viveu cinco décadas. Ai chega na metade disso, ao 25, e já se sente adulto, mesmo sem o ser, porque hoje em dia 25 é idade de adolescente. E, como viveu pouco, pro jovem tudo parece urgente. Até que um dia, creio que um dia aleatório, do nada, o jovem percebe que é jovem, e que o tempo que ele perdeu não foi tempo perdido, mas tempo passado. E que ele ainda tem a vida inteira pela frente. Tenho a vida inteira pela frente, e pra que ter pressa?

Eu mesmo quando era jovem – ou mais jovem pelo menos, pois com quase 27 ainda sou muito novo – mas eu lembro que queria fazer tudo, e queria ser o mais jovem da história a fazer tudo; e queria conquistar tudo antes dos 30, ou melhor, antes dos 25, ou dos 20, ou sei lá o que. Pra quê? Pra que fazer a vida passar mais depressa? A graça da vida está em vivê-la!

Agora nascem também meus primeiros fios de cabelo brancos, e me vejo comprando remédios para prevenir a calvície. E meu joelho direito é ruim. Meus amigos começaram a casar e ter filhos. E esse ano se completa uma década desde quando saí do Ensino Médio. E lá tudo era tão fácil. A única coisa que eu tinha para fazer era sonhar, e deixar que meus eus futuros realizassem meus sonhos, pois sendo menor de idade, não posso fazer muita coisa. E como eu sonhava…

Mas amadurecer também significa abrir mão de sonhos. Sinto que, a cada ano que passa, jogo pelo menos uns três ou quatro sonhos no lixo. Realismo, maturidade, não sei. Mas sei que abrir mão de um sonho dói, pois cada sonho que abandono leva consigo uma parte de mim. E o luto é sempre doloroso, mas as vezes é necessário. Tenho que me matar para poder nascer, que mudar para poder mudar. E sim, jogo sonhos fora, mas também crio novos sonhos, e sonhar novos sonhos é bom também, como acompanhar o nascer de uma criança, cheia de potencial, linda em sua inocência. O sonho novo é inocente, como eu sou inocente toda vez que sonho.

Agora que sei que sou jovem, anseio pelos anos que vem. E já experiente, recordo-me com alegria dos anos que vieram.

Hoje, com cabelos brancos, posso também comprar as roupas que eu quero. E, com meu joelho ruim, faço pilates e vou para a academia e sou muito mais seguro com meu corpo. Faço sexo sem sentir vergonha. E – olha só – outro dia viajei sozinho para Vitória para ir no casamento de uma amiga. Me hospedei num hotel, e a noite sai comer num restaurante, sozinho! E esse ano fui promovido no trabalho e marquei reencontros com antigos colegas de outros trabalhos que eu tive. Quantas pessoas não acumulo na minha vida?

E ainda assim, com toda essa pomposa maturidade, na confraternização do trabalho domingo passado, eu bebi demais e passei vergonha. E tudo bem. Pois sei que o tempo passo. E que maravilha o tempo passar. Que maravilha o tempo passar, e a nós esquecermos das dores e das vergonhas. E, quando nos lembramos, elas são tão bobas. O passado é tão bobo. É bobo como eu era bobo, porque todo jovem é bobo. E – isso descobri recentemente – o adulto e o velho também são bobos, e inseguros, e não sabem nada da vida. Não sabem porque a vida não para saber. A vida é para viver! E quando mais vivemos a vida, mais o tempo passa, e mais envelhecemos. Envelheço porque vivo, e que benção é viver.

O mais engraçado disso tudo, é que todo mundo envelhece igual. Quinhentos, milhares, milhões, já escreveram sobre amadurecimento e passagem do tempo. Ainda sim, escrevo. Escrevo pois acabei de completar 27 anos, e tenho uma vida inteira ainda pela frente.

04 – mente vazia, oficina do diabo

Estou de férias. E longe do frenesi do trabalho corrido, tenho tempo. E que coisa engraçada é ter tempo, não? Quando se tem tempo, ou você o joga fora não fazendo nada, ou o gasta com coisas que jamais imaginaria fazer. Ou ainda, você gasta o seu tempo pensando em coisas que não pensaria se não fosse o ócio — mente vazia, oficina do diabo! Independente do que você faz, esse tempo que você tem te transforma. 

Eu mesmo sinto que nessas férias me transformei. Sinto que, com o tempo, eu pude finalmente me tornar quem eu já estava há muito tempo a caminho de me tornar, mas me faltava o tempo para poder ser quem eu me tornei, ou melhor, me faltava tempo para deixar de ser quem eu era mas não devia ser. E que sensação boa essa de ser quem eu sou. Ser quem eu quero ser. Ser quem eu devo ser. Que sensação boa esta de mudar! Mas por que eu sinto isso? Não sei. Mas sinto. Sinto nas roupas que eu uso; nas comidas que eu faço; nas decisões que eu tomo; e nos meus arrependimentos – talvez especialmente neles. Ah, os arrependimentos que eu tenho são tão meus, tão próprios, idiossincráticos! Como é lindo se reconhecer nos seus defeitos, e olhar para um erro e falar “fui EU quem cometi!”. 

Sinto clareza sobre as minhas frustrações; e os meus sonhos, como a água da chuva, vieram do céu à terra. Desisti de quase todos eles. Mas a chuva que cai do céu molha a terra, e a terra úmida é fertil: nela posso plantar uma vida que é reflexo melhor de quem eu sou.

Consigo ver o que me frustra e tenho que aceitar no momento, e o que me frustra e posso mudar agora, e o que posso mudar depois, e o que não posso mudar depois. Vejo quais obstáculos vou enfrentar. Vejo quais caminhos mais seguros e simples posso seguir. Vejo os caminhos tortuosos que se abrem ao lado deles. Vejo tudo, porque ser eu me trouxe clareza! É o sol que brilhou após a noite. Era isso: eu vivia na noite, no escuro, e não podia me enxergar, nem enxergar meus arredores;  mas agora é dia, é claro, e eu vejo tudo!

Porém também não nego que, depois do júbilo de ser eu, me veio uma tristeza profunda. Tristeza pelo tempo perdido sendo um outro, e medo de, conforme as férias passem e o tempo vanessa, eu deixe de ser quem eu sou. Tenho medo de perder a mim mesmo no caos da rotina, nas noites mal dormidas, no estresse de trabalho. Medo de me perder na fome e na gula. Mas eu também sinto que agora, sendo quem eu sou, vou ganhar tempo, há que o espaço eu sinto que já ganhei. Serei senhor de mim, do tempo e do espaço.

E não vou gastar palavras tentando explicar quem eu sou, ou como mudei. Isso seria um desperdício do meu tempo e do seu. E por mais que eu esteja de férias, as férias estão acabando, e eu quero me aproveitar o máximo possível – não é sempre que consigo ser quem sou.

03 – um novo outro recomeço

La Venus del Espejo (1644) – Diego Velázquez

Há pouco mais de quatro anos, publiquei o primeiro texto deste blog. Estava de férias, inseguro em relação ao futuro, e chamei essa insegurança de tédio.  Na época, escrevia materiais didáticos e cursava faculdade. E claro, o mundo inteiro estava fechado, em lockdown pelo Coronavírus.

O tempo passou, criaram a vacina, a pandemia ficou sob controle, eu terminei a faculdade e hoje trabalho em um restaurante Michelin. Mas o engraçado é que, apesar de todas essas mudanças, eu ainda me sinto o mesmo. Lendo os textos que publiquei, eu continuo sendo a mesma pessoa.

Agora estou novamente de férias, ainda que de outro trabalho, mas meu futuro ainda me parece tedioso, e meu passado, desinteressante. Fico novamente com o presente – é ele quem me resta. E novamente, depois de muito tempo ocioso e reflexão, eu decidi criar um blog. Desta vez, vou tentar seguir com o plano: escrever, postar, e depois escrever mais e de novo. Eu espero que este novo recomeço dê certo. Se não der, quem sabe em quatro anos eu não encontre uma nova profissão, em um terceiro ramo totalmente distinto dos anteriores. Talvez, após um tempo neste novo ramo, quando tirar férias novamente, eu volte a me sentir entediado pensando no futuro e decida retomar o blog. A vida é isso: um constante recomeço. Todo dia o sol brilha de um novo jeito, ainda que ninguém perceba, pois ele ainda assim está brilhando.

O que me inquieta é saber se esse cansaço, essa desilusão, esse desinteresse e esse tédio que sinto há anos são sintomas da minha condição humana: será que sempre estarei assim? Ou será que são sintomas de alguma ferida não curada, que carrego desde 2021?

O bom de escrever e registrar essas angústias é poder, depois, revisitá-las, interrogá-las, conhecer-se, descobrir-se, questionar-se. A escrita permite ao escritor sentir o desconforto, e depois dissecá-lo, analisá-lo, entendê-lo, para depois queimá-lo na fogueira. E um dia, ele se depara com as suas cinzas. 

Mas ainda há a possibilidade de eu me enxergar no texto antigo por ele ser espelho. Pois sim, no fundo de todo texto, após dissecá-lo e sentir o cheiro pútrido de suas entranhas, você encontra um espelho. E no espelho, você se enxerga, e os olhos só enxergam o presente. Será que estou projetando minhas dores e aflições atuais nas dores e aflições que sentia no passado, e por isso as confundo como iguais? Não sei. A memória é falha e engana.

No fim, ler o que escrevi é o mesmo que ler o que qualquer outro escreveu, pois depois que escrevo mudo. Não se entra duas vezes no mesmo rio, mas também não se entra duas vezes na mesma lagoa. As águas podem ser as mesmas, mas eu não. Não sou mais eu quem escreveu aquele texto. Sou outro.

Então por que ainda sinto esse tédio, esse desinteresse pela vida? Talvez porque todos sintam tédio e desinteresse pela vida quando param para pensar nela. Talvez não. Não sei. Quem sabe, daqui a quatro anos, eu descubra. Enquanto isso, resta-me apenas uma coisa: continuar a escrever.