02 – tempo para amar

Gustav Klimt - Woman in an Armchair (Dame im Fauteuil) [1897-98] | Klimt,  Klimt art, Gustav klimt art
Dame im Fauteuil (1898) – Gustav Klimt

Até pouco tempo atrás estava de férias, mas eu lembro que mesmo de férias meus dias eram corridos. Fazer exercício, Duolingo, estudar, ler, escrever, lavar a louça, conversar com as pessoas, e todas outras coisas que ocupam essas 16 horas diárias que eu passo acordado. A moral é que eu tenho pouco tempo livre, mesmo para assistir filmes eu tenho que me programar. Esqueço o tempo todo de responder meus amigos, a louça sempre acumulada e não me lembro da última vez que abri meu TCC. Não tinha tempo para essas todas coisas – e eu estava de férias. Está certo que me falta um pouco de planejamento e força de vontade, mas acho que em geral nossa vidas são atarefadas.

A pergunta que eu quero fazer é: como as pessoas arranjam tempo, no meio de todo esse caios cotidiano, para namorar?

Eu realmente não consigo entender. Tenho 22 anos e nunca namorei, mas, como matemático quase formado, posso dizer que a conta não fecha. As vezes eu sonho em desencalhar, mas realmente acho que entre trabalho, faculdade e lazer não há espaço para o amor. Talvez eu não entenda, de fato, o que é um relacionamento amoroso. Na minha leiga concepção, é uma amizade forte em que há atração sexual. Estou errado? Iludido? Há amor sem amizade? Há grandes amizades com atração sexual? Há amor sem atração sexual?

Não consigo deixar de pensar que as conversas são importantes. E se não é a conversa que mantém um relacionamento, se não é o tempo que você passa junto da pessoa que ama, então um namoro é apenas uma afirmação? Uma verdade em que você pode se ancorar toda vez que se sentir sozinho? Como os religiosos sempre tem consigo Deus, os namorados sempre tem um ao outro?

Um lado meu tem medo de ser um namorado ruim por não conseguir se dedicar a um relacionamento todo tempo que eu devia, tem medo de não ter energia para conversar todos os dias e ser relapso com o amor da mesma forma com eu sou com as minhas amizades. Um outro lado meu acredita que, quando eu encontrar o amor, eu vou ser entendido, abraçado, e as conversas não vão ser cansativas, mas me reenergizar. As duas partes entendem que um relacionamento vai me ajudar a mudar e crescer. As duas partes de mim acham que eu preciso de coragem pra encarar o mundo e expor os meus defeitos, dar a cara tapa, perder o medo de sofrer, porque isso faz parte da minha jornada e eu devo parar de procrastinar.

Sabe outro medo que eu tenho? Tenho medo do meu primeiro amor ser eterno. Eu não quero ser um homem de um único amor; eu quero errar e sofrer; quero passar por um término e ouvir umas das muitas playlists de sofrência amorosa que eu já criei. Mas como eu posso começar um relacionamento com a esperança que um dia ele acabe? Eu sei que as probabilidades de eu encontrar o amor na primeira tentativa são baixas, mas não são nulas. Mas enquanto não encontrar meu primeiro amor, não terei o segundo. E se o primeiro amor for eterno, não quererei ter o segundo. Esse falso paradoxo é fácil de se resolver, mas o medo permanece, mesmo depois que lógica o prova irracional.

Me parece que quanto mais o tempo passa, mais difícil tudo isso fica. Da mesma forma como ao envelhecermos fica mais difícil conquistar a fluência numa língua, temo envelhecer e nunca obter fluência no amor. Por enquanto, me escoro na pandemia e no isolamento social para deixá-lo para depois.

01 – mais um novo começo…

A Woman Seated beside a Vase of Flowers (1865) – Edgar Degas 

Já faz muito tempo que ando insatisfeito com a minha vida futura. É um pouco engraçado isso, porque estou satisfeito com o lugar onde estou no presente, mas quando eu penso nos próximos cinco anos surge uma agonia. Não é ansiedade, não é medo, é tédio. Eu sinto tédio olhando para o futuro. Eu percebi isso quando saí de férias do trabalho e pude pela primeira vez em muito tempo esvaziar a cabeça e deixar o diabo trabalhar.

Primeiro, decidi que ia entrar para o BBB, mas logo desisti quando percebi que eu teria câmeras me filmando enquanto eu tomava banho. Depois criei um TikTok, e eu até investi por um tempo na ideia, até perceber que dá muito mais trabalho do que eu pensava. No entanto, a gota final que me fez desistir de vez do Tik Tok foi cortar o cabelo e me descobrir feio, e agora meu rosto não vai aparecer na internet por alguns meses.

Desistindo da carreira pública, pensei na profissão mais retratada em séries de televisão, e provavelmente também uma das mais animadas: ia me tornar um advogado. Assisti algumas aulas online, séries, filmes, fiz tours virtuais pela Faculdade de Direito do Largo São Francisco, me encantei com a história e com as disciplinas, e estava decidido: viraria um Doutor. Mas claro, a ideia também não foi pra frente, pois eu logo lembrei que a coisa que eu mais odeio na vida é burocracia.

Para me ajudar com essas decisões, recorri ao tarô, e enquanto as cartas do TikTok mostraram que ele seria fonte de vergonha e decadência, as cartas relacionadas ao curso de Direito mostravam tédio e insatisfação. Quando a vida nos dá sinais tão claros, não devemos ignorá-los, então acatei o que me foi dito e desisti de vez desses dois breves sonhos que me surgiram nessas três semanas de descanso.

Então antes das minhas férias acabarem, me vi perdido e deprimido, vivendo no presente porque o futuro era chato e o passado desinteressante. Mas nada é mais tedioso que o presente em março de 2021: estava trancado em casa, sem vontade de conversar com os amigos, sem poder sair, perdendo o interesse em cada uma das 5 línguas que comecei a treinar do Duolingo, sentindo remorso pelo dinheiro gasto com cursos de programação e culpa pela quantidade de calorias que estava comendo sem me exercitar. Tudo era maçante, e minha única salvação foi procurar mídias escapistas para que eu pudesse me imaginar vivendo um futuro colorido e divertido no pós-pandemia. 

Foi assim que eu comecei a assistir Sex and the City, e daí que me veio a ideia de criar um blog. A ideia veio acompanhada de uma necessidade de expressar o que estou sentindo, e de iludir-me com um novo futuro utópico, que nunca vou viver, mas que vai me guiar para algum lugar mais interessante do que onde estou agora. Não acho que ninguém vá ler o que eu vou escrever aqui, até porque não vou me esforçar para sair do anonimato – acho ele muito confortável. Então esse blog vira uma espécie de diário público, porque – apesar de não ter muito quem queira me ouvir – eu tenho muita coisa para falar. 

João.