01 – mais um novo começo…

A Woman Seated beside a Vase of Flowers (1865) – Edgar Degas 

Já faz muito tempo que ando insatisfeito com a minha vida futura. É um pouco engraçado isso, porque estou satisfeito com o lugar onde estou no presente, mas quando eu penso nos próximos cinco anos surge uma agonia. Não é ansiedade, não é medo, é tédio. Eu sinto tédio olhando para o futuro. Eu percebi isso quando saí de férias do trabalho e pude pela primeira vez em muito tempo esvaziar a cabeça e deixar o diabo trabalhar.

Primeiro, decidi que ia entrar para o BBB, mas logo desisti quando percebi que eu teria câmeras me filmando enquanto eu tomava banho. Depois criei um TikTok, e eu até investi por um tempo na ideia, até perceber que dá muito mais trabalho do que eu pensava. No entanto, a gota final que me fez desistir de vez do Tik Tok foi cortar o cabelo e me descobrir feio, e agora meu rosto não vai aparecer na internet por alguns meses.

Desistindo da carreira pública, pensei na profissão mais retratada em séries de televisão, e provavelmente também uma das mais animadas: ia me tornar um advogado. Assisti algumas aulas online, séries, filmes, fiz tours virtuais pela Faculdade de Direito do Largo São Francisco, me encantei com a história e com as disciplinas, e estava decidido: viraria um Doutor. Mas claro, a ideia também não foi pra frente, pois eu logo lembrei que a coisa que eu mais odeio na vida é burocracia.

Para me ajudar com essas decisões, recorri ao tarô, e enquanto as cartas do TikTok mostraram que ele seria fonte de vergonha e decadência, as cartas relacionadas ao curso de Direito mostravam tédio e insatisfação. Quando a vida nos dá sinais tão claros, não devemos ignorá-los, então acatei o que me foi dito e desisti de vez desses dois breves sonhos que me surgiram nessas três semanas de descanso.

Então antes das minhas férias acabarem, me vi perdido e deprimido, vivendo no presente porque o futuro era chato e o passado desinteressante. Mas nada é mais tedioso que o presente em março de 2021: estava trancado em casa, sem vontade de conversar com os amigos, sem poder sair, perdendo o interesse em cada uma das 5 línguas que comecei a treinar do Duolingo, sentindo remorso pelo dinheiro gasto com cursos de programação e culpa pela quantidade de calorias que estava comendo sem me exercitar. Tudo era maçante, e minha única salvação foi procurar mídias escapistas para que eu pudesse me imaginar vivendo um futuro colorido e divertido no pós-pandemia. 

Foi assim que eu comecei a assistir Sex and the City, e daí que me veio a ideia de criar um blog. A ideia veio acompanhada de uma necessidade de expressar o que estou sentindo, e de iludir-me com um novo futuro utópico, que nunca vou viver, mas que vai me guiar para algum lugar mais interessante do que onde estou agora. Não acho que ninguém vá ler o que eu vou escrever aqui, até porque não vou me esforçar para sair do anonimato – acho ele muito confortável. Então esse blog vira uma espécie de diário público, porque – apesar de não ter muito quem queira me ouvir – eu tenho muita coisa para falar. 

João.

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